Uso racional de medicamentos – Vamos explorar um estudo que trouxe à tona a importância da regulação governamental para minimizar falhas de mercado na saúde, como o risco de resistência antimicrobiana, que chega a comprometer 98% dos pacientes em certas regiões. Curioso sobre o impacto econômico?
O Uso racional de medicamentos (URM) é uma preocupação fundamental para a sustentabilidade dos sistemas de saúde globais, visto que os crescentes gastos farmacêuticos competem com outras prioridades. Em países em desenvolvimento, por exemplo, os medicamentos podem ocupar o segundo lugar nos orçamentos de saúde, logo após o pagamento de pessoal. A complexidade do cenário de assistência farmacêutica leva a uma abordagem econômica, onde o URM visa maximizar os benefícios e minimizar custos e riscos associados à terapêutica para o paciente e a comunidade. Essa prática, contudo, é afetada por diversas falhas de mercado e desafios regulatórios que introduzem ineficiências no sistema. O conceito de URM está intrinsecamente ligado à economia, tanto por envolver o uso de recursos limitados, quanto pela necessidade de tomar decisões que minimizem os custos totais da terapia sem comprometer sua qualidade.
Crescimento dos Gastos Farmacêuticos e Sustentabilidade dos Sistemas de Saúde
Recentemente, o aumento do gasto farmacêutico tem sido encarado como um risco à viabilidade dos sistemas públicos de saúde em muitos países, visto que os orçamentos destinados à aquisição de medicamentos competem diretamente com outras prioridades do setor. Essa expansão de gastos nem sempre se traduz em melhorias significativas nos indicadores de saúde, embora, paradoxalmente, cerca de um terço da população mundial ainda não tenha acesso a esses recursos terapêuticos. A análise dos dados de 2002 para os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revela a magnitude dessa variação, onde os gastos com medicamentos representaram entre 9,2% e 37,3% dos gastos totais em saúde.
Em países em desenvolvimento, os produtos farmacêuticos usualmente ocupam a segunda maior parcela dos orçamentos de saúde, vindo logo após o dispêndio com pessoal. Especificamente no Brasil, o montante federal investido na compra e distribuição gratuita de medicamentos via Sistema Único de Saúde (SUS) correspondeu a 9,7% do gasto total financiado pelo Ministério da Saúde em 2002. A Tabela 1, a seguir, detalha a variação percentual dos gastos totais em saúde (% do PIB), gastos com medicamentos (% dos gastos totais em saúde) e os gastos públicos com medicamentos (% dos gastos totais com medicamentos) em países da OCDE no ano de 2002, evidenciando as diferentes alocações de recursos. A disparidade nos gastos reflete combinações variadas de recursos, sejam elas eficientes ou ineficientes, utilizadas para fornecer assistência farmacêutica.
Variação de Gastos em Saúde e Medicamentos (2002)
| País | Gastos totais em saúde (% PIB) | Gastos em medicamentos (% dos gastos totais em saúde) | Gastos públicos em medicamentos (% dos gastos em medicamentos) |
|---|---|---|---|
| Áustria | 7,7 | 16,1 | 74,9 |
| Canadá | 9,6 | 16,6 | 37,6 |
| República Tcheca | 7,4 | 22,6 | 77,4 |
| Dinamarca | 8,8 | 9,2 | 52,5 |
| Finlândia | 7,3 | 15,9 | 53,0 |
| França | 9,7 | 20,8 | 67,0 |
| Alemanha | 10,9 | 14,5 | 74,8 |
| Grécia | 9,5 | 15,3 | 71,5 |
| Hungria | 7,8 | 27,6 | 62,5 |
| Irlanda | 7,3 | 11,0 | 84,2 |
| Itália | 8,5 | 22,4 | 52,1 |
| Luxemburgo | 6,2 | 11,6 | 82,5 |
| México | 6,1 | 21,6 | 9,2 |
| Holanda | 9,1 | 10,4 | .. |
| República da Eslovênia | 5,7 | 37,3 | 84,5 |
| Espanha | 7,6 | 21,5 | 73,6 |
| Suécia | 9,2 | 13,1 | 69,3 |
| Suíça | 11,2 | 10,3 | 67,0 |
| Estados Unidos | 14,6 | 12,8 | 19,5 |
Dentre os fatores que contribuem para o aumento do gasto farmacêutico, destacam-se a expansão da cobertura assistencial, o surgimento de novos medicamentos, o dinamismo epidemiológico, o envelhecimento populacional, as expectativas dos pacientes e, sobretudo, o uso incorreto de fármacos em variadas situações clínicas. A disponibilidade de uma ampla e variável gama de medicamentos no mercado potencializa a ocorrência de irracionalidade no seu consumo, tanto por parte dos indivíduos quanto dos profissionais, o que reforça a relevância de se adotar uma abordagem econômica para análise das questões envolvidas no uso racional de medicamentos (URM).
Definições de Uso Racional de Medicamentos sob a Perspectiva Econômica
A perspectiva econômica oferece uma base analítica coesa para o conceito de Uso Racional de Medicamentos (URM). Uma definição clássica provida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece que o URM ocorre quando os pacientes recebem a medicação apropriada para suas necessidades clínicas, nas doses corretas para sua individualidade, durante um período adequado e ao menor custo possível para o paciente e a coletividade. Outra definição complementar, segundo os autores, enfatiza a prática como a tentativa de maximizar os benefícios do uso de fármacos, minimizando os riscos (eventos adversos) e reduzindo os custos totais da terapia tanto para o indivíduo quanto para a sociedade.
Essa preocupação em otimizar recursos e reduzir custos, sem comprometer os padrões de qualidade, alinha-se diretamente com o conceito fundamental de economia. A economia, na definição de Samuelson, estuda como a sociedade escolhe a utilização de recursos produtivos limitados, com usos alternativos, para gerar bens e distribuí-los. Assim, a busca por uma prática de URM deve ser vista em si como um bem socioeconômico. Para ser implementada e disponibilizada, essa prática incorre em custos, visto que exige a apropriação de conhecimentos e mudanças de conduta de diversos agentes, desde fabricantes e agências reguladoras até médicos, farmacêuticos e pacientes. O uso seguro e apropriado dos medicamentos envolve, portanto, considerações clínicas, farmacêuticas, econômicas, jurídicas, regulatórias e culturais no processo de tomada de decisão no setor de saúde.
No âmbito econômico, os obstáculos à adoção do URM podem ser categorizados em diversos problemas estruturais. Dentre esses estão a escassez de recursos, a assimetria de informação entre agentes, a informação incompleta sobre os produtos, incertezas inerentes às decisões clínicas, externalidades, a consideração do preço-tempo, a influência de incentivos direcionados a prescritores e dispensadores, as preferências pessoais dos prescritores e o conceito de utilidade marginal associado ao consumo de fármacos.
Custo e Complexidade na Implementação do Uso Racional de Medicamentos (URM)
A implementação e manutenção do Uso Racional de Medicamentos (URM) envolve custos diretos e indiretos, devido à necessidade de aquisição de conhecimento e de adaptação comportamental por parte de múltiplos agentes. A prática do URM, sendo um bem socioeconômico, pressupõe o uso de recursos limitados, gerando complexidade em sua articulação. Agentes da cadeia produtiva farmacêutica, agências reguladoras, prescritores, farmacêuticos e pacientes devem incorporar novos conhecimentos e alterar condutas para garantir o uso apropriado e seguro do medicamento. Isso abrange dimensões clínicas, farmacêuticas, econômicas, jurídicas, regulatórias e culturais, essenciais ao processo decisório na saúde.
Economicamentem a dificuldade na adoção do URM é multifatorial, originando-se de problemas de escassez de recursos, assimetria de informação entre as partes interessadas, dados incompletos sobre produtos, incertezas inerentes às decisões clínicas e problemas relacionados a externalidades. Também influem negativamente fatores como o preço-tempo envolvido na assistência, a estrutura de incentivos para prescritores e dispensadores, as preferências individuais dos prescritores e o impacto da utilidade marginal sobre o consumo. A farmacoeconomia se dedica a analisar a eficiência na utilização desses recursos no contexto da assistência farmacêutica, buscando o equilíbrio entre bens tangíveis (medicamentos) e práticas intangíveis (URM), ambos geralmente escassos em relação às necessidades da população atendida.
O Problema da Escassez vs. a Fronteira das Possibilidades de Produção
A farmacoeconomia, ao analisar o uso eficiente de recursos na assistência farmacêutica, confronta-se com o problema da escassez de recursos, tanto bens tangíveis (medicamentos) quanto intangíveis (práticas de Uso Racional de Medicamentos – URM). A escassez, em termos econômicos, ocorre quando os recursos limitados não conseguem satisfazer todas as necessidades da sociedade. O estudo de Amaral classifica a escassez em natural ou artificial, sendo esta última a que os governos podem potencialmente resolver por meio de políticas, o que levanta o questionamento se a prática do URM se enquadraria nesse tipo de escassez.
Em economia, a restrição de recursos é ilustrada pela curva ou Fronteira das Possibilidades de Produção (FPP). Esta curva, que adota um formato côncavo, relaciona o equilíbrio na produção de duas categorias de bens, neste caso: Recursos destinados ao URM (A) versus Recursos destinados à Compra de Medicamentos (B). A FPP demonstra que, com um orçamento fixo, a ampliação de recursos em (A) implica a redução de recursos em (B), e vice-versa, refletindo o custo de oportunidade.
Análise da Curva de Possibilidades de Produção (FPP)
Considerando o ponto P, o orçamento permite a compra de 3.000 medicamentos (B) e o desenvolvimento de uma intervenção de URM (A), como diretrizes clínicas. Se for necessário migrar para o ponto Z, que amplia a intervenção (A) para cobrir mais cinco doenças, será necessário transferir recursos de (B), resultando na aquisição de apenas 2.000 unidades físicas de medicamentos. Neste cenário, o custo de oportunidade da ampliação do URM é o benefício potencial perdido pelos 1.000 medicamentos que deixaram de ser comprados. Contudo, intervenções que promovem o URM podem, a médio e longo prazo, diminuir o custo de oportunidade ao reduzir o consumo real de fármacos.
O modelo econômico estabelece que apenas os pontos na curva (como P e Z) representam alocação eficiente de recursos. O ponto D (acima da curva) refere-se a um nível de produção inalcançável no curto prazo, e o ponto K (abaixo da curva) indica uma situação possível, mas irracional devido à ineficiência produtiva. Assim, o desafio para as autoridades sanitárias, especialmente em países em desenvolvimento com orçamentos restritos, é conciliar a adoção de práticas promotoras do URM com a aquisição de medicamentos essenciais para maximizar os benefícios sociais.
Assimetria de Informações na Relação Médico-Paciente e o URM

A assimetria de informações, um conceito central na economia, ocorre na relação médico-paciente, sendo um fator que desfavorece o Uso Racional de Medicamentos (URM). Nessa dinâmica, o prescritor geralmente detém maior conhecimento sobre o efeito dos fármacos, os riscos de eventos adversos e a importância da adesão à terapia. Por outro lado, o paciente possui informações cruciais sobre seu contexto social e ambiental, essenciais para uma anamnese completa e para o sucesso do tratamento.
O desequilíbrio na posse de informação prejudica o URM, pois o conhecimento adequado sobre o medicamento é parte integrante e indispensável para seu uso terapêutico. Além disso, muitos profissionais de saúde carecem de sensibilização sobre a importância de orientar adequadamente os pacientes. No contexto brasileiro, foi notado que o farmacêutico é raramente encontrado em farmácias privadas; em vez disso, a orientação é frequentemente dada por balconistas, que são leigos em URM e, portanto, inaptos para o aconselhamento correto sobre o uso apropriado de medicamentos.
Para mitigar essa falha de mercado, pesquisadores sugerem diversas respostas institucionais: a produção e difusão de informações acerca da eficácia e preço dos tratamentos, a adoção da figura do paciente pró-ativo em decisões conjuntas, a criação de comitês de saúde ou bioética em hospitais e a minimização do comportamento oportunista na relação de agência. Um exemplo de instância que poderia atenuar a assimetria informacional é a Comissão de Farmácia e Terapêutica, embora seu desenvolvimento e consolidação na rede de assistência de saúde sejam limitados.
O Impacto da Assimetria de Informação entre Laboratórios e Prescritores
Outro ponto crítico de desequilíbrio informacional ocorre na interação entre o médico prescritor e os laboratórios farmacêuticos. Inicialmente, as empresas detêm a maior parte da informação técnico-científica e econômica sobre o fármaco. É preocupante que, muitas vezes, a única informação que os médicos recebem sobre determinados medicamentos seja proveniente diretamente desses laboratórios. Essa assimetria de informações favorece o aumento dos lucros das empresas em detrimento da promoção do Uso Racional de Medicamentos (URM).
Essa situação facilita comportamentos oportunistas, definidos como a busca por interesse próprio, por meio de desonestidade, ocultação de ações e distorções de informação. Tais práticas introduzem irracionalidades no uso dos medicamentos e acarretam um custo para o principal, conhecido como perda residual. A relação de agência torna-se imperfeita quando o agente (o médico) prioriza seus interesses ou os de instituições, em vez das necessidades do paciente, caracterizando a chamada demanda induzida na farmacoeconomia.
Para contrabalançar essa influência, os Centros de Informações de Medicamentos (CIM) desempenham um papel vital na minimização das assimetrias no campo da assistência farmacêutica. Contudo, em países como o Brasil, essas entidades são subutilizadas pelas autoridades sanitárias como ferramenta estratégica. Além disso, o financiador do serviço de saúde também sofre com a assimetria, pagando por um medicamento sem ter a garantia de que o paciente de fato necessita do produto.
Comportamento Oportunista e Risco Moral na Assistência Farmacêutica
A assimetria de informações, presente em diversos aspectos da assistência farmacêutica, facilita a emergência de comportamentos oportunistas, promovendo irracionalidades no uso racional de medicamentos (URM). Comportamento oportunista é definido como a busca pelo interesse próprio por meio de ações desonestas, como mentir, subornar ou distorcer informações. O controle desse comportamento é exercido por códigos de ética, valores sociais e ideologia.
A relação de agência, onde o indivíduo delega suas decisões (principal) a um agente (prestador de cuidados de saúde), ilustra como a assimetria pode levar ao oportunismo. Essa delegação de poder é uma consequência da ignorância do paciente sobre suas necessidades e sobre as características dos bens que as satisfazem. A relação de agência é considerada perfeita quando o médico toma decisões exclusivamente em função dos interesses do paciente (diagnóstico, prognóstico, situação socioeconômica, cobertura de saúde). No entanto, o agente pode considerar variáveis que beneficiam a si mesmo ou a terceiros, gerando a chamada demanda induzida – um comportamento oportunista que resulta em um custo para o paciente, denominado perda residual.
O próprio paciente pode manifestar comportamento oportunista como resultado da assimetria de informação, o que é denominado de risco moral. Por exemplo, em sistemas de saúde que fornecem medicamentos gratuitamente, o paciente pode fornecer informações falsas ao médico. Essa conduta leva ao consumo irracional de fármacos e, consequentemente, dificulta o acesso a outros indivíduos que genuinamente necessitam do tratamento, alimentando o ciclo de ineficiência.
A Problemática da Informação Incompleta e a Quantidade de Fármacos no Mercado
A teoria da demanda econômica pressupõe que os consumidores têm informações completas e suficientes sobre o bem que estão adquirindo. No campo da assistência farmacêutica, no entanto, essa premissa é desafiada pela vastidão e complexidade do mercado de fármacos. A quantidade de especialidades farmacêuticas disponíveis dificulta a coleta e assimilação de informações essenciais, como preço, qualidade, segurança, eficácia e efetividade, tanto para o consumidor quanto para os profissionais de saúde.
O volume da oferta exemplifica essa problemática: no Brasil, por exemplo, existem mais de 1.500 fármacos que se destinam a um montante superior a 12.000 produtos comerciais. Essa vasta quantidade de produtos, muitos dos quais podem ser desnecessários, obstaculiza a adoção de medidas que fortaleçam o Uso Racional de Medicamentos (URM). Profissionais de saúde enfrentam dificuldades em integrar as informações farmacológicas, como dose, efeitos adversos e interações medicamentosas, com as informações econômicas, como preço e relação custo-efetividade, sem o auxílio de instrumentos de gestão clínica, como guias terapêuticos e protocolos.
A deficiência informacional afeta diretamente a seleção e prescrição de medicamentos. Uma ação crucial para mitigar essa lacuna seria fortalecer a colaboração entre médicos e farmacêuticos, o que tem sido historicamente negligenciado em muitos países, especialmente nos em desenvolvimento. Pesquisas indicam que esta colaboração pode gerar impactos positivos na redução de problemas relacionados a medicamentos e na minimização dos custos para o sistema de saúde.
Incertezas nas Decisões Clínicas e a Variabilidade da Prática Médica
A incerteza e a intuição são elementos constantes na conduta clínica, influenciando todas as etapas do cuidado médico, desde a anamnese até a seleção da terapia farmacológica. Nesse processo, o médico assume um papel crucial, sendo responsável por cerca de 70% dos recursos do sistema sanitário utilizados para promover a saúde da população. Durante a consulta, o clínico toma decisões em um ambiente de incerteza, muitas vezes baseando-se em sua avaliação intuitiva acerca da gravidade e do risco do estado de saúde do paciente.
A imprevisibilidade nos resultados do tratamento farmacológico, que variam individualmente, aliada à ausência de garantia da eficácia total do medicamento e da efetividade do tratamento, pode resultar em contribuições marginais ineficientes no uso de medicamentos. Isso pode levar a esquemas terapêuticos perigosos ou irracionais para o paciente. Em situações de alta incerteza, sobretudo para pacientes de baixo risco, a conduta de aguardar pode ser clinicamente recomendável, embora nem sempre seja percebida como a mais adequada pelo paciente.
Especialistas apontam diversas origens para essa incerteza na prática clínica: limitações inerentes ao conhecimento científico disponível, insuficiência do conhecimento individual do prescritor, e a dificuldade do médico em discernir se suas dúvidas provêm de uma limitação científica ou de suas próprias deficiências de conhecimento. Adicionalmente, características do paciente, expectativas e as particularidades do sistema de saúde do país contribuem para a variabilidade da prática clínica. A informação, que visa mitigar a incerteza, torna-se um bem escasso com seu próprio custo de produção e transmissão.
Estratégias como a avaliação de tecnologias em saúde, diretrizes clínicas e Medicina Baseada em Evidências são utilizadas para minimizar a incerteza, cuja variação pode ser observada entre as diferentes especialidades médicas e doenças tratadas, exacerbando a variabilidade na prescrição e no uso de medicamentos.
Externalidades Negativas e Positivas do Uso de Medicamentos: O Caso da Resistência Antimicrobiana

A análise microeconômica das externalidades é relevante para o Uso Racional de Medicamentos (URM), pois se refere às consequências, positivas ou negativas, que o consumo ou a produção de medicamentos por um agente gera sobre pessoas não diretamente envolvidas. Uma externalidade positiva é ilustrada pela imunização de um indivíduo, que beneficia toda a comunidade ao reduzir a circulação da doença. Por outro lado, o desenvolvimento de resistência antimicrobiana devido ao uso inadequado de medicamentos é um exemplo de externalidade negativa.
A resistência antimicrobiana é uma grave preocupação de saúde pública, com custos significativos em termos de vidas humanas e recursos financeiros, uma vez que resulta em aumento da morbidade e da duração do tratamento. A resistência da Neisseria gonorrhoeae à penicilina, por exemplo, afeta cerca de 98% dos pacientes em certas regiões do mundo. O uso irracional de antibióticos pode ser atribuído a falhas em diversos níveis: prescrição excessiva ou inadequada por médicos, automedicação, venda incorreta por farmácias que descumprem a legislação e a pouca atuação de farmacêuticos na orientação.
A resistência aos antimicrobianos eleva os custos diretos e indiretos do tratamento, gera mais dias ausentes do trabalho e aumenta o risco de contágio. Outra externalidade negativa é a falta de notificação de suspeitas de reações adversas e outros problemas relacionados a medicamentos às autoridades sanitárias por parte de profissionais e laboratórios. O URM é promovido na medida em que a cadeia de produção e utilização dos medicamentos gera predominantemente externalidades positivas para a sociedade.
A Influência do Preço-Tempo na Prescrição e na Prática da Automedicação
Em economia, a prescrição de medicamentos pode funcionar como um bem ou serviço substitutivo de outros fatores de produção, notavelmente o tempo gasto na orientação do paciente. O processo de aconselhamento sobre mudanças de estilo de vida consome o tempo dos prescritores, e muitos optam pelo caminho mais rápido: a prescrição farmacológica. Pesquisas indicam que, cotidianamente, os médicos têm despendido menos tempo na dedicação aos pacientes e ainda menos para abordar os problemas relacionados a medicamentos. O excesso de trabalho dos profissionais é inclusive citado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fator principal que contribui para o Uso Irracional de Medicamentos.
O preço-tempo é o custo do tempo despendido, e profissionais de saúde que trabalham em várias instituições enfrentam um alto preço-tempo, o que pode levar a consequências negativas para o URM, como a má qualidade na prescrição. Para a população economicamente ativa, com alto preço-tempo, a prática da automedicação é vista como um caminho para um preço-tempo menor em comparação à busca por orientação médica. Nessa situação, o medicamento atua como um substituto da consulta, onde o tempo, juntamente com o preço monetário, compõe o custo total.
Para pacientes que recebem medicamentos financiados integralmente pelo governo, o preço monetário do produto é nulo, logo, o preço total é composto unicamente pelo preço-tempo (deslocamento, tempo de espera no atendimento e recebimento). O grau de resposta às variações no preço monetário e no preço-tempo varia conforme o custo de oportunidade do tempo de cada indivíduo: pacientes com baixo custo de oportunidade (como aposentados e desempregados) são mais sensíveis às mudanças no preço monetário.
Incentivos Econômicos e Não-Econômicos para Prescritores e Dispensadores
A contenção dos gastos em saúde impulsiona o desenvolvimento de estratégias que promovam uma prescrição mais adequada e contribuam para o Uso Racional de Medicamentos (URM). Uma das abordagens crucial envolve o uso de sistemas de incentivos, que buscam influenciar o comportamento humano (prescritores e dispensadores), motivado por três fatores primários: hierarquia (regras formais e autoridade); valores e ideologia (códigos de ética e filosofia organizacional); e incentivos econômicos.
Os incentivos financeiros, conforme citado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), podem influenciar decisivamente o uso racional ou irracional dos medicamentos. Frequentemente, a falta de incentivos que recompensem práticas eficientes tem sido a regra em organizações de saúde pública. O termo incentivo, embora restrito por vezes a recompensas financeiras, abrange qualquer estímulo que promova mudanças de comportamento ou práticas profissionais, impactando positivamente o URM.
Incentivos Perversos na Assistência Farmacêutica
Existem, contudo, exemplos de incentivos que distorcem a prática profissional, como a “empurroterapia” no Brasil, onde balconistas de farmácia indicam medicamentos com maior margem de lucro em troca de comissões, o que afeta negativamente o URM. Outro caso de incentivo perverso foi observado em um estudo conduzido na Califórnia, que analisou 766 médicos de atenção primária contratados por organizações de managed care. Deste total, 38% dos médicos declararam que seus contratos incluíam algum tipo de bônus financeiro, frequentemente vinculado à prescrição de medicamentos e à satisfação do usuário. Tais retribuições eram seletivamente associadas a certas terapias, levando esses médicos a se sentirem pressionados a limitar as informações fornecidas aos pacientes sobre as opções de tratamento.
Princípios de Desenho de Incentivos e Sistemas de Retribuições no Setor de Saúde
Um dos mecanismos mais importantes para alinhar objetivos e metas de trabalho em organizações é o sistema de incentivos e retribuições. De acordo com Milgrom e Roberts (1992), o desenho de sistemas de incentivos e retribuições para empregados deve seguir princípios que podem ser aplicados para influenciar o Uso Racional de Medicamentos (URM).
Princípios Relevantes para a Promoção do URM
- Princípio da Informação: A remuneração deve ser baseada em indicadores controláveis na área de atuação dos profissionais e monitoráveis. No contexto do URM, indicadores incluem o número médio de medicamentos receitados por consulta, o percentual de prescrições pelo nome genérico, o gasto por prescrição e o percentual de medicamentos prescritos a partir da lista padronizada de essenciais.
- Princípio de Intensidade do Incentivo: Relaciona-se à aversão ao risco do agente e à sua capacidade de resposta aos estímulos. Se os profissionais de saúde são sensíveis a incentivos monetários, incentivos de alta intensidade podem ser adequados, mas requerem menor aversão ao risco por parte do profissional.
- Princípio de Intensidade da Vigilância: Os custos de transação, que englobam custos de coordenação (transmissão de informações dispersas) e motivação (harmonização de interesses), aumentam com a elevação da intensidade do incentivo. Sistemas de incentivo de alta intensidade exigem sistemas de informação, acreditação e auditoria sofisticados para controlar o oportunismo.
- Princípio de Igualdade das Compensações: Se um profissional divide seu tempo entre múltiplas atividades, aquelas com menor incentivo tendem a receber menos atenção. Este pode ser um limitador no uso de contratos de incentivo em organizações sanitárias devido à multiplicidade de tarefas dos prescritores.
A criação desses mecanismos de incentivos e retribuições, sejam eles financeiros ou não, visa equilibrar os interesses entre o agente e o principal, coibir comportamentos oportunistas e, fundamentalmente, estimular ações que promovam o URM, contrabalançando os incentivos perversos.
O Efeito Rachet e Outras Limitações dos Contratos de Incentivo
A eficácia dos sistemas de incentivos, desenhados para promover o Uso Racional de Medicamentos (URM) e otimizar a atenção à saúde, encontra barreiras em limitações de implementação e em fenômenos como o Efeito Rachet. Este efeito refere-se ao risco de penalizar resultados de melhoria ótimos, criando uma tendência nos profissionais de reduzir seus resultados atuais para evitar a imposição de um aumento constante de esforço futuro.
Um exemplo prático do Efeito Rachet no contexto da assistência farmacêutica ocorre quando uma equipe de saúde consegue reduzir com sucesso seus gastos com medicamentos em um determinado período. Em resposta, o orçamento destinado aos gastos farmacêuticos para o período subsequente corre o risco de ser reduzido, desmotivando a equipe a buscar melhorias de eficiência contínuas. Essa dinâmica perversa compromete o alinhamento de longo prazo com o URM.
Outras Limitações e Controles
O princípio da Igualdade das Compensações atua como uma limitação nos contratos de incentivo, pois atividades sem incentivo financeiro ou não-monetário claro recebem menos atenção, um problema significativo em organizações sanitárias com múltiplas atividades não formalmente recompensadas. Além disso, a falha em dispor de mecanismos rigorosos para identificar comportamentos oportunistas, juntamente com a incapacidade de aplicar sanções efetivas, enfraquece o desenvolvimento ótimo de qualquer sistema de incentivos. A falta de compromisso e reputação por parte da direção também leva os profissionais a focar apenas naquilo que percebem ser valorizado pela gestão, distanciando-se do objetivo central do URM.
A Influência das Preferências dos Prescritores na Escolha Farmacoterapêutica

O Uso Racional de Medicamentos (URM) é afetado pelas preferências dos prescritores, que se baseiam em julgamentos e interesses pessoais. Quando confrontado, por exemplo, com dois produtos com o mesmo princípio ativo e bioequivalência, o médico pode optar por um em detrimento do outro, movido por critérios que nem sempre garantem a maximização do bem-estar do paciente. Um exemplo disso é a resistência de alguns prescritores em receitar medicamentos genéricos, geralmente mais baratos, sob a alegação de dúvidas quanto à sua qualidade ou eficácia.
Essa preferência do médico entra em conflito com o bem-estar do indivíduo se este tiver restrição orçamentária. A observação das escolhas farmacoterapêuticas, por meio de indicadores como número médio de medicamentos receitados por consulta ou percentual de prescrições pelo nome genérico, pode fornecer dados cruciais para avaliar se essas preferências estão, de fato, alinhadas à potencialização do URM.
Na perspectiva econômica, para que as preferências das pessoas sejam reveladas através da observação de seu comportamento, pressupõe-se que elas permaneçam estáveis por um período de tempo superior a um mês. Essa condição se aplica à prescrição de medicamentos, já que é improvável que as preferências de um prescritor mudem significativamente em um curto prazo. Além dos incentivos formais, mecanismos informais como congressos e publicidade, e instituições como associações e sociedades científicas, também podem influenciar o comportamento prescritor e, consequentemente, o fortalecimento do URM.
Utilidade Marginal e a Interrupção Prematura de Tratamentos com Antibióticos
Em farmacoeconomia, a utilidade de um medicamento relaciona-se às suas características intrínsecas (eficácia) e extrínsecas (efetividade e custo), refletindo o grau de satisfação obtido pelo indivíduo com o consumo. Esta utilidade é subdividida em total e marginal. A utilidade marginal, que é a satisfação extra obtida por mais uma unidade de consumo, tipicamente diminui na medida em que mais incrementos do produto são consumidos.
No caso específico dos antibióticos, o fenômeno da utilidade marginal decrescente pode levar ao Uso Irracional de Medicamentos (URM) por meio da interrupção prematura do tratamento. Isso ocorre porque o paciente, ao perceber uma melhora significativa no seu estado de saúde, interrompe o uso do medicamento antes do término prescrito, baseando-se na diminuição da satisfação marginal que cada dose adicional proporciona.
Exemplo Prático com Antibiótico A
O exemplo de um tratamento com Antibiótico A, em comprimidos de 100 mg, prescrito três vezes ao dia durante uma semana (totalizando 21 comprimidos), demonstra que: a Utilidade Total (UT) cresce e atinge a saturação no sétimo dia (cura total), enquanto a Utilidade Marginal (UMg) reduz a cada dose. A tabela abaixo ilustra a relação entre a UMg percebida e o estado de saúde:
| Nº de dias (Comprimidos ingeridos) | Utilidade Marginal (UMg) | Estado de Saúde | Necessidade de URM |
|---|---|---|---|
| 1 (3) | 7 | Ruim | Sim (S) |
| 4 (12) | 4 | Bom | Sim/Não (S/N) |
| 7 (21) | 1 | Ótimo | Sim/Não (S/N) |
| 8 (24) | 0 | Curado totalmente | Não (N) |
| 10 (30) | Negativa | Comprometido | Não (N) |
Se o paciente interrompe o tratamento no quarto dia, ao sentir-se “Bom”, ele comete um ato irracional e facilita a produção de externalidades negativas, como o surgimento da fármaco-resistência. Adicionalmente, se o paciente continuar o consumo após o término do tratamento (a partir do oitavo dia), a UMg passa a ser negativa, representando um risco à saúde.
Considerações Finais: O Medicamento como um Bem Tutelar e a Intervenção Governamental
A análise econômica aplicada ao Use Racional de Medicamentos (URM) é imprescindível, uma vez que o medicamento é considerado um bem de mérito ou tutelar, cujo consumo atende a necessidades socialmente prioritárias e deve ser incentivado, muitas vezes por meio de provisão gratuita ou subsidiada pelo governo. Essa prática deve estar intrinsecamente vinculada ao URM, pois este potencializa o binômio efetividade/segurança e contribui para a racionalidade econômica da assistência farmacêutica.
O uso irracional de medicamentos resulta em desperdício de recursos, contribui para desequilíbrios de acesso e deteriora a qualidade de vida dos indivíduos. A ilusão de que se pode fornecer qualquer medicamento a todos indiscriminadamente gera ineficiência. Portanto, cabe ao governo intervir para regular, minimizar e controlar as falhas de mercado identificadas. Isso é feito por meio de diversas intervenções, incluindo certificações de boas práticas de fabricação, regulação da propaganda de medicamentos, comprovação das indicações terapêuticas via ensaios clínicos e o controle de preços.
Propostas de Intervenção Governamental para o URM no SUS
Para maximizar o bem-estar e fortalecer o URM, o governo pode adotar medidas adicionais como:
- Comunicação em Embalagens: Utilizar uma das faces da embalagem do medicamento para divulgar a importância do URM, uma estratégia similar à adotada no Brasil para prevenção ao fumo.
- Parcerias Informacionais: Fortalecer a parceria com os Centros de Informações de Medicamentos (CIM) para que atuem como “propagandistas de medicamentos no SUS”, fornecendo informações objetivas aos médicos e contrabalançando a influência da informação comercial.
- Estruturas de Avaliação: Incentivar a criação de unidades de avaliação de tecnologias em saúde no SUS, com o objetivo de desenvolver sistemas de documentação clínica, analisar criticamente a literatura científica e orientar a incorporação de novas tecnologias.
Estratégias de Autoridades Sanitárias para a Promoção Efetiva do Uso Racional de Medicamentos
As autoridades sanitárias possuem um papel ativo na regulação e controle das falhas que introduzem irracionalidade na assistência farmacêutica. Para a promoção efetiva do Uso Racional de Medicamentos (URM), diversas estratégias podem e devem ser implantadas, focando nos profissionais de saúde e nos pacientes.
Medidas para Otimizar o Uso Racional de Medicamentos
As intervenções governamentais já implementadas para mitigar os problemas econômicos na cadeia farmacêutica englobam a certificação de boas práticas de fabricação, o controle de preços dos fármacos, a regulação da propaganda de medicamentos e a comprovação de indicações terapêuticas por meio de ensaios clínicos e estudos farmacoepidemiológicos.
Estratégias adicionais propostas incluem a utilização das embalagens dos medicamentos como um canal de comunicação de alertas e informações que promovam o URM, de forma semelhante à campanha de prevenção ao fumo. É crucial também o fortalecimento dos Centros de Informações de Medicamentos (CIMs), transformando-os em propagandistas de medicamentos
para o Sistema Único de Saúde (SUS). Estes profissionais fariam visitas informativas aos médicos do SUS, fornecendo informações objetivas para contrabalançar a influência das empresas farmacêuticas.
Outra medida fundamental é o incentivo à criação de unidades de avaliação de tecnologias em saúde no SUS, destinadas a:
- Desenvolver sistemas robustos de informação e documentação clínica.
- Analisar criticamente a literatura científica para disponibilizar resultados relevantes aos profissionais.
- Prestar auxílio na orientação da incorporação de novas tecnologias no sistema de saúde local.
Ao regulamentar e controlar as falhas de mercado, as autoridades sanitárias promovem o bem-estar coletivo e otimizam a aplicação dos recursos limitados, evitando o desperdício gerado pelo uso irracional de medicamentos.
Implicações Econômicas e Sociais do Uso Racional de Medicamentos
A análise da assistência farmacêutica sob uma perspectiva econômica demonstra que o Uso Racional de Medicamentos (URM) é um fator crucial para a sustentabilidade dos sistemas de saúde, competindo com as crescentes despesas farmacêuticas, que em países da OCDE variaram entre 9,2% e 37,3% dos gastos totais em saúde em 2002. As falhas de mercado, como a assimetria de informação e a irracionalidade induzida por incentivos perversos (como o recebimento de bonificações por 38% dos médicos em um estudo), resultam em ineficiência e comprometem o bem-estar coletivo.
Especificamente, o conceito de utilidade marginal decrescente ilustra a irracionalidade do paciente que interrompe o tratamento com antibióticos prematuramente, com a melhora perceptível; tal comportamento gera externalidades negativas diretas, como a resistência antimicrobiana, que em casos como a Neisseria gonorrhoeae compromete até 98% dos pacientes em certas regiões, elevando custos e mortalidade associada. O desafio reside em conciliar a limitação de recursos com a necessidade de prover medicamentos adequados, especialmente frente a um mercado com mais de 12.000 produtos comerciais em alguns países.
Regulamentar o setor e promover intervenções de URM por meio de políticas públicas é fundamental, incluindo o fortalecimento dos Centros de Informações de Medicamentos (CIMs) para fornecer informações objetivas e de qualidade. Estruturas de incentivo devem ser concebidas com cautela, evitando o Efeito Rachet, que desmotiva a melhoria contínua dos resultados. O URM, portanto, não é apenas um imperativo clínico, mas um alicerce para a saúde pública eficiente.
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Fonte: Scielo.br







