N-acetylcysteine use in a cocaine – Vamos discutir um estudo que revelou sua aplicação bem-sucedida em falência hepática induzida por cocaína, condição rara. Nesse caso, a NAC foi administrada 40 horas após a admissão, contribuindo para a recuperação completa do paciente. Como isso pode mudar os protocolos clínicos?
A intoxicação e o abuso de cocaína representam um problema mundial, frequentemente associado a complicações médicas agudas, incluindo insuficiência hepática grave. A hepatotoxicidade induzida por cocaína, embora rara, é extremamente séria e pode levar à necessidade de transplante de fígado ou até mesmo à morte. Este relato de caso visa descrever o manejo de uma falência hepática aguda desencadeada pela intoxicação por cocaína e discutir o potencial uso da N-acetilcisteína (NAC) neste contexto.
A gestão de hepatite tóxica, após a interrupção do agente causador, é majoritariamente sintomática, englobando monitoramento laboratorial e clínico, além da prevenção de complicações. No entanto, a NAC, reconhecidamente um antídoto para intoxicação por paracetamol, tem sido investigada devido ao seu papel antioxidante contra o estresse oxidativo provocado por metabólitos da cocaína.
Contexto Global e Hepatotoxicidade da Cocaína
A intoxicação e o uso abusivo de cocaína configuram um desafio de saúde pública global, sendo a cocaína classificada como a segunda droga ilícita recreativa mais consumida na França, ficando atrás apenas da cannabis, conforme relatado em 2022. O consumo da substância está associado a diversas complicações clínicas agudas, afetando sistemas cardiovascular, cerebrovascular e renal.
Embora infrequentes, os casos de disfunção hepática também são relatados, manifestando-se tipicamente de poucas horas a alguns dias após uma overdose aguda. A hepatotoxicidade induzida pela cocaína tende a não ocorrer isoladamente, apresentando-se geralmente em conjunto com a disfunção de outros órgãos vitais. Estes eventos são caracterizados pela sua gravidade extrema, podendo necessitar de transplante hepático ou resultar em óbito. O manejo da hepatite tóxica, após a interrupção do agente causal, é predominantemente sintomático, exigindo monitoramento clínico e laboratorial rigoroso para a prevenção de complicações associadas.
Detalhes do Caso Clínico: Intoxicação Aguda por Cocaína em Paciente de 28 Anos
O caso clínico em questão envolve uma paciente de 28 anos, com histórico de depressão e múltiplos vícios, incluindo tabaco, álcool, cannabis e cocaína, que foi admitida após uma ingestão aguda de cocaína, cuja dose e via de administração eram desconhecidas. Os sintomas iniciais no pronto-socorro incluíam tremores e desorientação, com a paciente apresentando alucinações, alerta prejudicado, midríase bilateral e movimentos coreicos anormais, posteriormente tratados com diazepam e clonazepam.
O acompanhamento psicológico mais recente da paciente, realizado dois anos antes da admissão, confirmou os vícios e indicou um histórico de prescrições de aripiprazol, amisulprida, quetiapina e risperidona. A apresentação clínica sugere que a paciente desenvolveu uma síndrome serotoninérgica grave induzida pelo uso de cocaína.
Sinais Vitais e Sintomatologia Inicial na Admissão Hospitalar
Na admissão hospitalar, os sinais vitais da paciente indicavam uma condição crítica, com uma hipertermia acentuada, registrando temperatura corporal de 40°C. A taquicardia era evidente, com frequência cardíaca de 210 batimentos por minuto, e a taquipneia marcava 40 respirações por minuto. A pressão arterial estava baixa, em 91/62 mmHg, caracterizando hipotensão.
A saturação de oxigênio da paciente em ar ambiente era de 95%. Imediatamente, foram implementadas medidas de suporte sintomático, que incluíram controle térmico externo, preenchimento vascular e hiper-hidratação. Em decorrência da falência hemodinâmica e neurológica apresentada, a paciente foi transferida para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde a sintomatologia clínica foi avaliada como compatível com uma síndrome serotoninérgica grave induzida pela droga.
Resultados Bioquímicos Iniciais: Acidose Metabólica, Insuficiência Renal e Rabdomiólise
Os exames bioquímicos iniciais revelaram uma série de disfunções orgânicas severas associadas à intoxicação por cocaína. Foi detectada uma hiperlactatemia significativa de 16 mmol/L e acidose metabólica. A função renal estava comprometida, indicada por níveis de creatinina de 218 μmol/L.
A rabdomiólise foi confirmada com uma concentração de creatina quinase (CPK) de 1.518 UI/L. Adicionalmente, foi observada hiperleucocitose (35 G/L), hemoglobina de 17,3 g/L e plaquetas estáveis em 415 G/L, com testes de hemostasia dentro da normalidade. A concentração de troponina, um marcador de lesão miocárdica, estava elevada em 1.307 ng/L. Os testes séricos iniciais para álcool e paracetamol foram negativos. Entretanto, o rastreamento toxicológico no sangue identificou desmetildiazepam, além de cocaína e seus principais metabólitos.
Monitoramento Toxicológico de Cocaína e Principais Metabólitos (BZE e EME)

O monitoramento toxicológico do sangue, realizado 9 horas após a admissão da paciente, embora com volume de amostra insuficiente para quantificação inicial, revelou concentrações específicas de cocaína e seus metabólitos. A quantificação exata, utilizando cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massa em tandem (LC-MS/MS), demonstrou que a concentração de cocaína era de 13 ng/mL. Os metabólitos inativos, a benzoilecgonina (BZE) e o éster metílico de ecgonina (EME), apresentaram concentrações de 3.760 ng/mL e 319 ng/mL, respectivamente.
A presença de cocaína, mesmo em concentração mais baixa, 9 horas após a admissão sugeriu que seu consumo havia ocorrido em um período recente. De forma notável, o BZE e o EME eram os compostos majoritariamente detectáveis, estendendo-se por períodos significativos: o BZE permaneceu detectável no plasma por até 18 dias e o EME por 8 dias. Em comparação, as meias-vidas de eliminação do BZE e EME, geralmente reportadas após administração intravenosa, são de 7,9 horas e 6,8 horas, respectivamente. No caso da paciente, as meias-vidas foram significativamente estendidas para 38,3 horas (BZE) e 26,5 horas (EME), provavelmente devido à insuficiência hepática e renal.
A triagem toxicológica urinária, realizada 3 horas após a admissão, confirmou a ingestão de cocaína e cannabis, além de detectar desmetildiazepam e paracetamol, este último administrado para febre hospitar. O teste para etilenoglicol no sangue resultou negativo.
Evolução Clínica e Início da Falência Hepática Aguda com Coagulação Intravascular Disseminada
Após a transferência inicial para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), a paciente evoluiu para uma síndrome de disfunção orgânica múltipla, culminando em um choque grave que exigiu altas doses de vasopressores. Adicionalmente, desenvolveu hipóxia devido à síndrome de angústia respiratória (SARA).
Passadas 38 horas da admissão, os resultados laboratoriais confirmaram o desenvolvimento de hepatite aguda grave. O pico das transaminases Aspartato Aminotransferase (AST) e Alanina Aminotransferase (ALT) atingiu 6.358 UI/L e 3.917 UI/L, respectivamente. Essa condição estava associada a uma insuficiência hepatocelular grave, manifestada por hipoglicemia (glicemia de 3,7 mmol/L) e Coagulação Intravascular Disseminada (CID).
Os parâmetros de coagulação na CID estavam severamente alterados: nível de protrombina em 22%, Tempo de Tromboplastina Parcial Ativado (aPTT) de 1,48, Fator V em 20%, contagem de plaquetas de 81 G/L e D-dímero elevado em 44.880 ng/mL. Concomitantemente, a acidose metabólica persistiu, acompanhada por hipercalemia, uma dramática elevação da rabdomiólise (CPK de 126.244 UI/L) e um alto nível de troponina (9.779 ng/L).
Implementação do Tratamento com N-Acetilcisteína, Diálise e Medidas de Suporte
Dada a extrema gravidade da lesão hepática manifestada pelas elevações de transaminases e coagulopatia, a administração de N-acetilcisteína (NAC) foi iniciada 40 horas após a admissão, coincidindo com o pico de disfunção hepática. A decisão foi baseada nas diretrizes francesas para falência hepática aguda grave independentemente da etiologia. O regime de NAC seguiu o protocolo recomendado para intoxicação por paracetamol: uma dose de ataque de 150 mg/kg em 15 minutos, seguida por uma dose de manutenção de 50 mg/kg durante 4 horas e, subsequentemente, 100 mg/kg administrada ao longo de 16 horas.
Em razão da insuficiência renal agravada e dos altos níveis de creatina quinase (CPK), que atingiu o pico de 126.244 UI/L, a hemofiltração contínua foi necessária a partir do terceiro dia de internação. Nas semanas seguintes, a paciente recebeu sessões de hemodiálise intermitente, que se estenderam do quarto ao dia quatorze.
A ultrassonografia abdominal mostrou hepatomegalia não dismórfica, descartando hipertensão portal e trombose. A melhora da função hepática foi notada a partir do quinto dia, com normalização dos parâmetros de hemostasia e a interrupção progressiva da diálise no 14º dia. A paciente recebeu alta 25 dias após a admissão, inicialmente com insuficiência renal persistente (creatinina de 186 μmol/L), que se recuperou totalmente quatro meses depois.
Discussão: Diferenciação entre Lesão Hepática Induzida por Cocaína ou Choque Hepático
A discussão clínica buscou diferenciar se a falência hepática da paciente decorreu diretamente da hepatotoxicidade da cocaína ou de um choque hepático secundário à instabilidade hemodinâmica inicial. Uma avaliação abrangente da sintomatologia e dos testes bioquímicos, além da exclusão de outras causas de lesão hepática, como o uso de acetaminofeno (paracetamol), indicou fortemente uma Lesão Hepática Induzida por Drogas (DILI) relacionada ao uso de cocaína.
A quantificação toxicológica mostrou a presença de cocaína por 9 horas após a admissão. Notavelmente, os metabólitos benzoilecgonina (BZE) e éster metílico de ecgonina (EME) apresentaram meias-vidas de eliminação plasmática substancialmente elevadas, de 38,3 horas e 26,5 horas, respectivamente, em contraste com as meias-vidas típicas de 7,9 horas (BZE) e 6,8 horas (EME) após administração intravenosa, sugerindo um impacto da insuficiência hepática e renal na farmacocinética.
Farmacocinética Metabolismo da Cocaína e Implicações do Estresse Oxidativo
A hepatotoxicidade associada ao consumo de cocaína é primariamente atribuída a uma rota metabólica minoritária catalisada pelo citocromo P450 3A4 (CYP3A4), que metaboliza aproximadamente 5% da cocaína. Este processo gera metabólitos reativos, como N-hidroxi-norcocaína, norcocaína nitróxido e norcocaína nitrosônio. Esses metabólitos não são rotineiramente quantificados, mas são cruciais para a patogênese da lesão hepática.
A principal consequência destes metabólitos é a indução de estresse oxidativo, que se manifesta pelo aumento da produção de espécies reativas de oxigênio (ROS). Este processo esgota o glutationa (GSH) celular, um antioxidante endógeno vital, e provoca a peroxidação lipídica, levando à necrose ou apoptose dos hepatócitos. Em contraste, cerca de 95% da cocaína é hidrolisada por carboxilesterases microssomais (principalmente 1) e butirilcolinesterase plasmática em metabólitos inativos primários, como BZE e EME.
O Racional Científico para o Uso da NAC em Hepatite Não Relacionada ao Paracetamol

A N-acetilcisteína (NAC), um derivado sintético do aminoácido cisteína, possui um vasto histórico como antídoto para a hepatotoxicidade induzida pelo paracetamol, reabastecendo os níveis esgotados de glutationa (GSH) hepático, essenciais para a detoxificação. O racional para o uso da NAC em hepatites não relacionadas ao paracetamol, como a DILI induzida por cocaína, fundamenta-se nas suas propriedades antioxidantes. A NAC atua diretamente contra espécies oxidantes, reagindo com espécies reativas de oxigênio e nitrogênio por meio do seu grupo tiol livre. Indiretamente, ela impulsiona os níveis intracelulares de cisteína, facilitando a síntese de GSH.
Em casos de intoxicação por cocaína, o estresse oxidativo é notório devido à produção significativa de espécies reativas de oxigênio (ROS), sendo esse processo mediado pela oxidação-redução dos metabólitos (norcocaína nitróxido/N-hidroxi-norcocaína). Experimentos em camundongos indicaram um efeito protetor da NAC, como precursora de GSH, contra a hepato toxicidade da cocaína. Portanto, o uso de NAC busca reduzir o ROS, aumentar a atividade de enzimas antioxidantes como catalase e glutationa peroxidase, e promover a síntese de GSH, mitigando o dano celular hepático.
Conclusão: Recomendação para Investigação Adicional da NAC na Falência Hepática por Cocaína
A NAC demonstrou, em diversos estudos, melhorar a sobrevivência geral e a sobrevida sem transplante em pacientes com insuficiência hepática aguda grave não causada por paracetamol (acetaminofeno), especialmente quando administrada em estágios iniciais da encefalopatia. Tais evidências apoiam as recomendações da Associação Americana para o Estudo de Doenças Hepáticas (AASLD) e a Sociedade Francesa de Anestesiologia e Medicina de Terapia Intensiva (SFAR).
Devido à segurança relativa do N-acetilcisteína e seu mecanismo de ação documentado contra o estresse oxidativo, que é um fator-chave na hepatotoxicidade da cocaína, a investigação adicional de seu uso é fundamental. O caso da paciente, que sobreviveu sem sequelas renais ou hepáticas após a administração de NAC, filtração contínua e suporte hemerodinâmico, reforça o potencial benefício desta abordagem terapêutica. São encorajados novos estudos randomizados para comparar a eficácia da NAC com placebo em casos de hepatite aguda tóxica não relacionada ao paracetamol, buscando definir preditores de resposta, dosagem e duração ótimas do tratamento.
Implicações Terapêuticas e Necessidade de Estudos Controlados com N-acetilcisteína
O caso reportado demonstrou a potencial eficácia de um protocolo de suporte agressivo, incluindo a administração de N-acetilcisteína (NAC), na reversão de uma falência hepática aguda grave induzida por cocaína, evidenciada pelos picos de AST (6.358 UI/L) e ALT (3.917 UI/L), e nos parâmetros de coagulação alterados (Protrombina de 22% e D-dímero de 44.880 ng/mL). A recuperação da paciente sem sequelas, após o início da NAC e diálise, sublinha a relevância da abordagem clínica precoce.
O racional para o uso da NAC em hepatotoxicidade por cocaína baseia-se na sua capacidade de combater o estresse oxidativo, o mecanismo primário de lesão celular induzida pelos metabólitos minoritários da droga. Contudo, o papel da NAC em intoxicações não relacionadas ao paracetamol, embora suportado por diretrizes como as da AASLD devido a melhorias na sobrevida livre de transplante quando administrada precocemente, ainda é debatido e requer fundamentação mais robusta.
A principal lição clínica é a necessidade de cautela e tratamento agressivo em DILI induzida por cocaína. Dado o mecanismo de ação promissor da NAC e sua relativa segurança, a comunidade científica deve priorizar estudos randomizados, comparando a NAC com placebo para hepatite aguda não associada ao paracetamol, como a induzida por cocaína. Tais ensaios futuros deverão definir a dose, duração e os preditores de resposta mais adequados para a terapia com NAC.
Quer ficar por dentro das últimas descobertas científicas? Assine nossa newsletter gratuita e receba conteúdo exclusivo diretamente no seu e-mail. Não perca nenhuma atualização – explore mais artigos como este em nosso site!
Fonte: Frontiers in Toxicology







