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Intubação devido a envenenamento por Dieffenbachia em criança de 3 anos

Intubação devido a envenenamento por Dieffenbachia em criança de 3 anos

Disclaimer

O artigo abaixo é um resumo de um estudo científico, capítulo de livro ou outro material científico, com o objetivo de tornar as descobertas e avanços científicos mais fáceis de entender. Ele explica os principais dados e resultados de forma simples, mas não substitui a leitura do material original. O conteúdo é baseado na fonte original, com explicações reescritas e citações diretas dos pesquisadores. Gráficos, tabelas e dados numéricos são retirados diretamente da fonte, sem modificações. A ideia é divulgar o conhecimento científico de forma clara.

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Intoxicação por “Comigo-ninguém-pode” – Vamos abordar um estudo que destacou a criticidade da intervenção imediata, pois a negligência levou à obstrução das vias aéreas com ventilação mecânica. A saturação de oxigênio do paciente caiu para apenas 86%. Como evitar complicações graves?

A Intoxicação por “Comigo-ninguém-pode” (Dieffenbachia) é uma ocorrência comum, geralmente em crianças, devido à ampla presença desta planta ornamental em ambientes domésticos. Pertencente à família Araceae, esta planta representa um risco sério, especialmente para exposição oral e das vias aéreas, devido à presença de cristais de oxalato de cálcio e à enzima proteolítica L-asparginase. A maioria dos casos envolve indivíduos com menos de 6 anos e apresenta sintomas leves; no entanto, este caso enfatiza a gravidade potencial da exposição.

A apresentação clínica é classicamente caracterizada por irritação e edema localizados, mas a negligência dos sintomas pode levar a complicações críticas. O diagnóstico é baseado unicamente na história de exposição e nos sinais clínicos, uma vez que não há exames toxicológicos específicos disponíveis.

Antecedentes e Toxicologia da Dieffenbachia (Comigo-ninguém-pode)

O gênero Dieffenbachia, popularmente conhecida como Comigo-ninguém-pode ou dumb cane, pertence à família Araceae e ao reino Plantae, com cerca de 135 espécies identificadas, predominantes na América Central e do Sul. Historicamente, no final do século XVII, a toxicidade da planta foi empregada por povos amazônicos no preparo de veneno para flechas e, de forma punitiva, para torturar escravos por meio da aplicação do óleo na boca.

Composição Química e Mecanismo de Ação

Todas as partes da planta Dieffenbachia são consideradas tóxicas, embora haja variações na toxicidade entre as partes foliares e caulinares. O mecanismo de ação tóxica é fundamentalmente atribuído à presença dos cristais de oxalato de cálcio e à enzima proteolítica L-asparginase. A exposição a esses componentes resulta em dano tecidual e subsequente inflamação, desencadeando a sintomatologia clínica.

Manifestações Clínicas Comuns por Exposição

As manifestações clínicas da intoxicação dependem do local de exposição, abrangendo irritação dérmica, edema, dormência e inchaço da língua, obstrução das vias aéreas e dor e lacrimejamento ocular. Uma revisão abrangente, que avaliou 23 fontes sobre a exposição à Dieffenbachia, documentou as seguintes frequências de sintomas:

SintomaFrequência (%)
Irritação Oral18,2
Dor Dérmica8,7
Vômito2,6
Eritema (Vermelhidão)2,5
Irritação da Garganta2,3
Edema Dérmico2,2
Prurido (Coceira)2,1
Irritação Ocular1,7
Erupção Cutânea1,2
Tosse/Engasgo1,1

Conforme os dados, a irritação oral (18,2%) e a dor dérmica (8,7%) foram os toxidromes mais prevalentes. A maior parte dos casos de exposição é acidental e não intencional, particularmente em crianças com idade inferior a 6 anos, sendo a via oral a principal porta de entrada. A toxicidade da planta no sistema nervoso, rins ou fígado não foi demonstrada em humanos, diferentemente de estudos em ratos albinos Wister, que sugeriram toxicidade nestes órgãos.

Diagnóstico e Protocolo de Tratamento

O diagnóstico do envenenamento por Dieffenbachia é estritamente baseado na história de exposição e na avaliação da apresentação clínica, uma vez que não há triagem toxicológica específica disponível. O tratamento é de suporte, sem a existência de protocolo ou antídoto específico. Em casos leves e que recebem intervenção imediata, os sintomas geralmente se resolvem em até 24 horas. Para casos mais graves, a recuperação pode se estender por dias ou até meses, especialmente se houver negligência no tratamento inicial.

Mecanismo de Ação do Envenenamento e Manifestações Clínicas Comuns

O quadro clínico decorrente da exposição à Dieffenbachia é causado primariamente pela ação dos cristais de oxalato de cálcio e da enzima proteolítica L-asparginase, que conjuntamente levam à destruição tecidual e inflamação local. O contato acidental com a seiva ou óleo da planta é o mecanismo mais comum de exposição, afetando as superfícies mucosas do trato digestivo, vias aéreas, pele e olhos.

Início e Tipos de Sintomas

Os sintomas usualmente se manifestam poucos minutos após a exposição, caracterizados por irritação, dor, edema e vermelhidão nas superfícies afetadas. A maioria dos sintomas são localizados e resultam em complicações diretas na área de contato. Essas manifestações incluem inchaço e irritação da pele, inchaço da língua, dor oral, dificuldade para engolir (disfagia), salivação excessiva (sialorreia), estridor, rouquidão e leve obstrução das vias aéreas.

Padrão de Gravidade e Duração

A intoxicação por plantas de oxalato é frequente em centros de controle de envenenamento, com mais de 4.000 exposições relatadas anualmente, sendo a maioria dos casos de natureza leve. O envolvimento de crianças menores de 6 anos representa a maior parte dessas ocorrências.

Em casos que recebem intervenção de suporte adequada e precoce, a totalidade dos sintomas locais normalmente se resolve dentro de 24 horas, com exceção de exposições oculares e casos que sofreram intervenção tardia ou negligência. Casos de exposição prolongada, ou aqueles com sintomas graves na apresentação, exigem tempo de recuperação estendido; alguns relatos descrevem a necessidade de mais de 2 meses para recuperação total em lesões mucosas.

Condutas de Suporte e Monitoramento

O manejo clínico baseia-se em medidas de suporte, uma vez que não existe tratamento específico ou antídoto conhecido. Tais medidas incluem compressas frias para controlar o inchaço dérmico, administração de esteroides intravenosos para minorar a inflamação e a destruição tecidual, e anti-histamínicos para reduzir extravasamento vascular e edema. A depender da gravidade, é fundamental oferecer suporte respiratório mínimo ou avançado, e manter observação estrita por um período mínimo de 24 horas para monitorar a manifestação de complicações tardias, especialmente nos casos de envolvimento das vias aéreas ou do sistema digestivo.

Relato de Caso: Criança de 3 Anos e Obstrução das Vias Aéreas Superior

O caso clínico relata a situação de um menino etíope de 3 anos, sem histórico de doenças crônicas e com desenvolvimento neuropsicomotor normal, que foi levado ao pronto-socorro pediátrico após mastigar e engolir partes de uma planta de Dieffenbachia. A exposição inicial ocorreu enquanto o lactente brincava no quintal, sendo que a mãe tentou remover a planta da boca, mas não conseguiu precisar a quantidade ingerida.

Progressão dos Sinais Iniciais

Os primeiros sintomas surgiram poucos minutos após a ingestão, manifestando-se como inchaço labial leve e sensação de queimação na língua e garganta. Devido à subestimação da gravidade pela família, que acreditava na resolução espontânea dos sintomas, a criança só foi levada à emergência 6 horas depois da exposição, quando se tornou irritável e afônica.

Avaliação Inicial no Pronto-Socorro

Na admissão, os sinais vitais eram estáveis e dentro da normalidade para a idade: frequência de pulso de 100 batimentos por minuto, frequência respiratória de 24 respirações por minuto, temperatura de 36,2 °C e saturação de oxigênio de 97% em ar ambiente. O exame físico concentrado na cabeça, pescoço e garganta (HEENT) revelou inchaço dos lábios e eritema (vermelhidão) da língua.

As análises laboratoriais iniciais, que incluíram hemograma completo, eletrólitos séricos, glicemia, testes de função renal e enzimas hepáticas, apresentaram resultados normais. Em face do histórico de ingestão da Dieffenbachia, o paciente foi mantido em jejum, iniciou hidratação intravenosa de manutenção e recebeu medicamentos de suporte: cetirizina (2,5 mg oralmente por dia, dose de 0,25 mg/kg/dia), dexametasona (3,6 mg intravenosamente duas vezes ao dia, dose de 0,6 mg/kg/dia), paracetamol (7,5 mL oralmente quatro vezes ao dia, dose de 15 mg/kg/dia) e cimetidina (200 mg intravenosamente três vezes ao dia, dose de 40 mg/kg/dia), sendo mantido em observação rigorosa na sala de emergência.

Apresentação Clínica Inicial e Progressão dos Sintomas Respiratórios Tardia

Apesar da estabilidade inicial após o início do tratamento de suporte, a condição clínica da criança piorou 2 horas após a chegada ao pronto-socorro. Os sintomas de progressão incluíram salivação intensa (sialorreia), respiração comprometida e dois episódios de convulsão tônico-clônica generalizada, cada um com duração de 2 a 3 minutos.

Deterioração dos Sinais Vitais

O exame físico realizado durante essa deterioração revelou mudanças significativas nos sinais vitais do paciente: a frequência de pulso aumentou para 144 batimentos por minuto, mantendo-se regular, e a frequência respiratória diminuiu drasticamente para 16 respirações por minuto. A respiração tornou-se lenta e irregular, com uso de musculatura acessória e reduzida entrada de ar na ausculta pulmonar (hipoventilação). Adicionalmente, ocorreu um estado febril leve, com temperatura de 38,1 °C, e a saturação de oxigênio (O₂), que estava normal na admissão, caiu para 86%, mesmo com o uso de máscara facial.

Suspeita de Obstrução e Crises Convulsivas

As convulsões foram controladas com a administração de 1,8 mg de Diazepam endovenoso. A baixa saturação de oxigênio, combinada com a dificuldade respiratória, levou à suspeita de imininte falência respiratória causada por obstrução das vias aéreas superiores, decorrente do edema induzido pela intoxicação por Dieffenbachia. Embora a manifestação de convulsões seja incomum neste tipo de envenenamento, os pesquisadores atribuíram os episódios à hipóxia cerebral grave, resultante do edema e do subsequente comprometimento das vias aéreas.

Manejo de Emergência e Necessidade de Suporte Ventilatório Mecânico (V-A/C)

Imagem

Diante do quadro de falência respiratória iminente, transferiu-se a criança do pronto-socorro para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para intubação imediata. Um exame pré-intubação com laringoscópio revelou eritema faríngeo e edema laríngeo, estreitando a abertura da glote, contudo, ainda permitindo a visualização das cordas vocais.

Suporte Ventilatório Mecânico e Parâmetros Iniciais

Devido ao edema das vias aéreas e à saturação de oxigênio persistentemente baixa, a criança foi submetida à intubação por sequência rápida e colocada em suporte de ventilação mecânica. O modo de ventilação empregado foi a Ventilação por Volume Assistido/Controlado (V-A/C), configurado inicialmente com os seguintes parâmetros, que foram posteriormente ajustados:

ParâmetroValor InicialValor AjustadoUnidadeContexto
Modo de VentilaçãoV-A/CV-A/CVolume Assistido/Controlado
Frequência (Rate)20respirações/min
Relação I:E1:21:2Tempo inspiratório/expiratório
Volume Corrente (Vt)10572mlVolume ajustado para peso corpóreo
Fração de O₂ Inspirado (FiO₂)7040%Oxigênio fornecido
PEEP54cmH₂OPressão expiratória final positiva

Com estes ajustes, a saturação de oxigênio no sangue (O₂) foi mantida na faixa de 95-97%, e os demais sinais vitais retornaram aos limites normais. O manejo farmacológico de suporte anterior foi mantido: dexametasona 3,6 mg intravenosa duas vezes ao dia (0,6 mg/kg/dia), cetirizina 2,5 mg oralmente por dia (0,25 mg/kg/dia) e cimetidina 200 mg intravenosa três vezes ao dia (40 mg/kg/dia).

Tratamento Empírico e Recuperação

Devido à dificuldade de excluir a suspeita de meningite após o comprometimento respiratório, a terapia incluiu antibióticos empíricos com ceftriaxona 600 mg intravenosa duas vezes ao dia (dose meníngea de 100 mg/kg/dia) e vancomicina 180 mg intravenosa quatro vezes ao dia (60 mg/kg/dia). Após 3 dias de ventilação mecânica, o paciente foi extubado e necessitou de suporte mínimo de oxigênio intranasal por algumas horas, mantendo posteriormente a saturação em ar ambiente.

Discussão: Complicações Inesperadas (Convulsões por Hipóxia) e Tratamento de Suporte

A ocorrência de episódios de crises convulsivas é atípica em casos de intoxicação por Dieffenbachia. Neste relato, as convulsões foram coincidentes com a dessaturação crítica resultante do edema de vias aéreas, indicando que foram induzidas pela hipóxia grave. A literatura médica não descreve toxicidade da planta em humanos nos sistemas renal, cardíaco ou hepático, o que foi corroborado pelos resultados normais nos exames laboratoriais do paciente para eletrólitos e enzimas hepáticas e renais.

Impacto da Demora no Tratamento

O caso atual demonstra o impacto clínico do atraso na apresentação do paciente. Embora o manejo tenha seguido o protocolo de suporte padrão (esteroides intravenosos para reduzir a inflamação, anti-histamínicos para mitigar o edema vascular e suporte respiratório), o adiamento no início do tratamento atrasou o efeito de medicamentos como a dexametasona e a cetirizina. Em casos anteriores de envenenamento, a recuperação variava de algumas horas a poucos dias, dependendo da extensão das complicações e da intervenção imediata.

Requerimento de Terapia Estendida

A complicação tardia de edema das vias aéreas com a necessidade de ventilação mecânica resultou em um tempo de recuperação mais longo, o que alinha-se a relatos de exposições prolongadas e negligenciadas. Em tais situações, especialmente aquelas que envolvem as superfícies mucosas, a recuperação completa pode levar mais de 2 meses, sublinhando a gravidade potencial da intoxicação quando a assistência médica é tardia.

Conclusão e Recomendações de Monitoramento Clínico Pós-Exposição

O paciente foi transferido da UTI para a enfermaria hospitalar com sinais vitais estáveis. Dois dias após a transferência, a criança apresentava fala clara e audível, indicando a completa remissão do edema laríngeo. Exames físicos subsequentes confirmaram a ausência de inflamação nos lábios, língua e faringe, e a irritação na garganta foi totalmente resolvida, permitindo a alimentação oral plena.

Desfecho Clínico e Prevenção

Após a resolução completa dos sintomas, o tratamento farmacológico com dexametasona, cetirizina e cimetidina foi mantido por 5 dias. Os antibióticos empíricos, iniciados devido à impossibilidade de realizar punção lombar e excluir meningite por compromisso respiratório, foram continuados por 7 dias, em face dos resultados negativos para hemoparasitas e culturas sanguíneas. O paciente recebeu alta com melhora total e sem sequelas neurológicas ou respiratórias, sem recorrência dos episódios convulsivos.

Este caso reforça a gravidade de uma complicação, relativamente rara, de comprometimento das vias aéreas que exigiu ventilação mecânica. É crucial que a atenção médica seja buscada imediatamente após a exposição à planta tóxica e que o paciente seja monitorado rigorosamente por, no mínimo, 24 horas, especialmente em exposições envolvendo os sistemas digestivo e respiratório, a fim de prevenir complicações tardias graves.

Relevância Clínica da Intoxicação por Dieffenbachia e Necessidade de Vigilância

O caso clínico de intoxicação por Dieffenbachia (Comigo-ninguém-pode) em uma criança de 3 anos sublinha a potencial gravidade das complicações respiratórias, demandando intervenção avançada. Embora a maioria dos mais de 4.000 exposições anuais relatadas em centros de controle de intoxicações seja leve, a negligência inicial dos sintomas – irritação oral, comorbidade mais comum com 18,2% de incidência – resultou na progressão para obstrução de vias aéreas superiores, culminando em suporte ventilatório mecânico (V-A/C).

A complicação tardia observada, incluindo convulsões induzidas por hipóxia após redução da saturação de oxigênio para 86%, demonstra a necessidade de monitorização intensiva, sendo recomendada observação clínica por um mínimo de 24 horas após a exposição, especialmente quando há comprometimento digestivo ou respiratório. A recuperação completa da criança sem sequelas após internação prolongada e um curso de antibióticos empíricos por 7 dias ressalta a eficácia do tratamento de suporte, mesmo em casos de apresentação tardia.

Este relato serve como alerta sobre a inadequação do diagnóstico apenas por sintomas iniciais e advoga pela prontidão na intervenção médica para mitigar complicações que requerem manejo invasivo, como a intubação, mesmo em toxicodromes tipicamente benignos. A profilaxia e educação dos pais sobre os riscos da Dieffenbachia ornamental permanecem cruciais para a saúde pública pediátrica.

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Fonte: Journal of Medical Case Reports